Da água que transforma à cidade que evolui: […]

30/05/2026 às 18:31

Por Rejane Moraes

Da água que transforma à cidade que evolui: como o saneamento ajudou a reescrever a história do Mocambinho

Obra de esgotamento sanitário no bairro Mocambinho. (Foto: Águas de Teresina)

Antes das avenidas movimentadas, dos supermercados, das escolas e da rede de esgoto que hoje corta silenciosamente as ruas do Mocambinho, havia apenas um conjunto habitacional recém-inaugurado no extremo norte de Teresina.

Conjunto Mocambinho em dezembro de 1982, Cohab-PI. (Foto: Acervo digital Teresina Antiga).
Conjunto Mocambinho em dezembro de 1982, Cohab-PI. (Foto: Acervo digital Teresina Antiga).

Quando recebeu as chaves da casa, em 1982, o seu Etin, não imaginava que estava testemunhando o nascimento de uma das maiores comunidades da capital.

O trajeto era difícil. Os ônibus eram escassos. As ruas ainda não tinham a estrutura que existe atualmente. O bairro parecia distante do restante da cidade.

“Quando cheguei aqui, tudo estava começando. Era um desafio. Não tinha a infraestrutura que existe hoje. Mas as pessoas acreditavam no Mocambinho”, recorda.

Etin Brasil - Morador do bairro Mocambinho desde 1982. (Foto: Thiago Santos)
Etin Brasil – Morador do bairro Mocambinho desde 1982. (Foto: Thiago Santos)

Mais de quatro décadas depois, ele continua morando na mesma região. Agora, observa uma realidade completamente diferente.

O bairro que nasceu como um conjunto habitacional tornou-se uma cidade dentro da cidade. São mais de 24 mil habitantes (IBGE), serviços públicos consolidados, comércio ativo e uma rede de infraestrutura que ajudou a redefinir a qualidade de vida da população. Mas para entender essa transformação é preciso voltar ainda mais no tempo.

 

ONDE HOJE EXISTE CIDADE, JÁ EXISTIU UMA LAGOA

O comerciante Tito chegou ao bairro em 1986. Foi um dos primeiros empreendedores a acreditar no potencial econômico da região.

Seu Tito - Comerciante, residente no Mocambinho desde 1986. (Foto: Thiago Santos)
Seu Tito – Comerciante, residente no Mocambinho desde 1986. (Foto: Thiago Santos)

Naquele período, onde hoje circulam carros e moradores, existiam terrenos vazios, vegetação nativa e uma lagoa conhecida pelos moradores como Lagoa Azul.

Muitos diziam que abrir um comércio ali seria um fracasso. Ele decidiu arriscar. “Falavam que não ia dar certo porque durante o dia só tinha mulheres em casa e todo mundo trabalhava no Centro. Mas eu apostei no bairro.”, afirmou Tito.

A aposta funcionou. Ao longo dos anos, Tito assistiu ao crescimento das ruas, à chegada de novos moradores e à expansão dos serviços urbanos. “O bairro cresceu muito. Melhorou a infraestrutura, chegaram obras importantes e hoje temos uma qualidade de vida muito melhor.”, afirma.

Entre as mudanças mais significativas, ele destaca uma que quase nunca aparece aos olhos de quem passa pelas ruas: a expansão do saneamento.

“Quanto ao bairro hoje, percebo que ele cresceu e se transformou. As ruas mudaram, a infraestrutura ficou melhor. Fizeram um sistema de escoamento de água que saía daqui. A lagoa foi reformada. Hoje o bairro está diferente, a qualidade de vida está boa!”, pontua.

Comercial Tito, bairro Mocambinho. (Foto: Thiago Santos
Comercial Tito, bairro Mocambinho. (Foto: Thiago Santos

A INFRAESTRUTURA QUE NINGUÉM VÊ, MAS TODO MUNDO SENTE

As grandes transformações urbanas nem sempre acontecem sobre o solo. Muitas vezes, elas acontecem abaixo dele. Tubulações, redes coletoras, estações de tratamento e sistemas de abastecimento formam uma infraestrutura invisível para a maioria da população, mas essencial para o desenvolvimento das cidades.

Em Teresina, esse movimento ganhou força nos últimos anos. Segundo Flávia Miranda, gerente-executiva da Águas de Teresina, mais de R$ 1,3 bilhão foram investidos em obras de saneamento desde o início da concessão.

Obra de esgotamento sanitário no bairro Mocambinho. (Foto: Águas de Teresina)
Obra de esgotamento sanitário no bairro Mocambinho. (Foto: Águas de Teresina)

Os números ajudam a dimensionar essa transformação: a cobertura de esgotamento sanitário passou de cerca de 19% para mais de 59%. Mais de 483 quilômetros de foram redes implantadas, há 29 estações de tratamento em operação atualmente, e aproximadamente 40 milhões de litros de esgoto são tratados por dia.

“Isso significa mais acesso à coleta e ao tratamento adequado do esgoto, mais proteção aos rios “Isso significa mais acesso à coleta e ao tratamento adequado do esgoto, mais proteção aos rios e ao meio ambiente e, principalmente, mais saúde para as pessoas.”, afirma Flávia.

Obra de esgotamento sanitário no bairro Mocambinho. (Foto: Águas de Teresina)
Obra de esgotamento sanitário no bairro Mocambinho. (Foto: Águas de Teresina)

Mas os impactos não aparecem apenas nas estatísticas. Eles chegam à saúde, ao meio ambiente e ao desenvolvimento urbano.

“Os dados da Fundação Municipal de Saúde mostram isso de forma muito clara. Em 2025, Teresina registrou uma redução de cerca de 13% nos casos de doença de transmissão hídrica e alimentar. Já no Hospital da Criança, essa queda foi ainda maior, chegando a 22% nos atendimentos relacionados a esse tipo de doença. Então quando a gente investe em esgotamento sanitário, a gente está investindo também em prevenção, qualidade de vida e dignidade.”, pontua Flávia.

 

O BRASIL VÊ O PIAUÍ DE PERTO

Os resultados do desenvolvimento inteligente da cidade e do bairro Mocambinho, começam a ser observados também fora dos limites da capital.

Levantamentos do Instituto Trata Brasil apontam Teresina entre as cidades brasileiras que mais avançaram nos indicadores de saneamento nos últimos anos. O reconhecimento ocorre em um contexto nacional desafiador.

Segundo dados do instituto, milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso adequado à coleta e ao tratamento de esgoto, uma realidade que impacta diretamente a saúde pública, a educação e a produtividade econômica.

De acordo com Luana Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil, nas cidades que ampliam a cobertura sanitária, os efeitos costumam aparecer em cadeia: menos doenças, mais valorização urbana, maior atração de investimentos e melhoria dos indicadores sociais.

“No Piauí a gente tem 92% da população com acesso à água, 45% de coleta de esgoto, então o acesso pleno ao saneamento pode gerar todos esses benefícios que a gente vê também em escala nacional. Teresina tem investido muito em saneamento básico, por exemplo, na última edição do ranking do saneamento do Trata Brasil, a cidade evoluiu 14 posições, foi um dos municípios que mais evoluiu no ranking, principalmente por conta do avanço na coleta e tratamento dos esgotos. Mas esse avanço vem com o investimento, vem com a priorização do tema saneamento básico e com o acesso pleno à água tratada e também a coleta e tratamento dos esgotos, que vai gerar todo esse benefício de saúde, de renda, de melhor escolaridade média nas crianças, de um futuro mais promissor. E com dignidade necessária para cada cidadão Piauíense.”, revela.

É justamente nesse ponto que o saneamento deixa de ser apenas uma obra de engenharia e passa a dialogar com um conceito cada vez mais presente no planejamento urbano: o de cidades inteligentes.

 

UMA CIDADE INTELIGENTE COMEÇA PELO BÁSICO

Quando se fala em cidades inteligentes, muitas pessoas imaginam sensores, aplicativos e tecnologia de ponta. Mas especialistas apontam que nenhuma cidade se torna inteligente sem resolver primeiro questões fundamentais como água tratada, esgotamento sanitário, drenagem e gestão ambiental.

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas reforçam essa visão. O saneamento está diretamente relacionado ao ODS 6, que prevê água limpa e saneamento para todos.

Em outras palavras, investir em saneamento é investir simultaneamente em vários indicadores de desenvolvimento.

 

A MUDANÇA QUE CHEGA DENTRO DE CASA

Para dona Vilmara Rodrigues, toda essa discussão técnica pode ser resumida em algo muito mais simples: a água.

Ela sorri quando fala sobre o assunto. “Eles podem dizer o que quiserem, mas a melhor água é a daqui. Eu viajo, experimento água em outros lugares, mas quando volto para Teresina parece que até a sede passa. Tudo com ela é maravilhosa, nossa água não tem pareia!”, afirma.

Vilmara Rodrigues, moradora do bairro Mocambinho. (Foto: Thiago Santos)
Vilmara Rodrigues, moradora do bairro Mocambinho. (Foto: Thiago Santos)

Na cozinha de dona Vilmara, a água prepara o café. No tanque, ajuda a lavar a roupa. Na mesa, acompanha as refeições.

“Nossa água serve para tudo. É maravilhosa.”, afirma.

Cozinha de dona Vilmara, no bairro Mocambinho. (Foto: Thiago Santos)
Cozinha de dona Vilmara, no bairro Mocambinho. (Foto: Thiago Santos)


A HISTÓRIA EXPLICA O PRESENTE

O historiador Bernardo Sá lembra que o Mocambinho nasceu dentro de uma lógica de expansão urbana característica das décadas de 1970 e 1980.

Assim como outros conjuntos habitacionais de Teresina, foi planejado para receber milhares de famílias em uma região que ainda estava em consolidação.

Ao longo do tempo, o bairro enfrentou problemas comuns ao crescimento acelerado das cidades brasileiras. Enchentes, deficiência sanitária, limitações de infraestrutura e carência de equipamentos urbanos.

“Durante muitos anos houve problemas relacionados ao saneamento e à drenagem. Algumas obras estruturantes ajudaram a mudar essa realidade”, explica.

Primeira enchente no Mocambinho em 1983. (Foto: Acervo digital Teresina Antiga).
Primeira enchente no Mocambinho em 1983. (Foto: Acervo digital Teresina Antiga).

 

QUANDO O SANEAMENTO VALORIZA TERRITÓRIOS

Arquitetos e urbanistas costumam dizer que o valor de um imóvel não depende apenas da construção. Depende também da cidade ao redor.

Ruas pavimentadas, abastecimento regular de água, coleta e tratamento de esgoto, drenagem eficiente e preservação ambiental influenciam diretamente o valor percebido de uma região. O que antes era visto apenas como obra pública passa a funcionar também como um ativo econômico.

No Mocambinho, essa transformação pode ser observada na expansão do comércio, na melhoria dos serviços e no fortalecimento da ocupação urbana ao longo das últimas décadas.

Para o arquiteto e urbanista, Carlos Kaiser, o saneamento não cria sozinho o desenvolvimento. Mas cria as condições para que ele aconteça.

“Um bairro com saneamento básico, disponibiliza para o humanismo uma qualidade de vida maior. As pessoas têm mais saúde, adoecem menos. E os vetores também diminuem naquela região. Insetos, ratos, baratas. Então, a transmissão de doenças simples, comuns, ela é bem diminuída, é bem reduzida. Juntamente com saneamento básico, a gente também cita que os equipamentos de escoamento de águas pluviais. Então, quando você tem saneamento e tem um sistema de coleta de águas pluviais, você tem um bairro mais valorizado.“, afirma.

 

O FUTURO CORRE POR BAIXO DAS RUAS

Pouca gente percebe. Mas sob os pés de quem caminha pelas ruas do Mocambinho existe uma rede que ajuda a sustentar o bairro.

Tubulações que transportam água tratada. Sistemas que coletam esgoto. Estruturas que reduzem riscos ambientais. Equipamentos que contribuem para a saúde pública.

Avenida principal do bairro Mocambinho. (Foto: Thiago Santos)
Avenida principal do bairro Mocambinho. (Foto: Thiago Santos)

Para o seu Etin, que viu o bairro nascer, essa transformação tem um significado especial.

“O Mocambinho é o melhor lugar do mundo. Já morei em outros lugares de Teresina, mas o Mocambinho é especial para mim. Tenho uma forte ligação com o bairro. Pretendo ficar aqui até o fim, pois sou apaixonado pelo Mocambinho. É meu lar, meu aconchego.”, afirma Etin, com os olhos mareados, enquanto se refresca na cozinha de sua casa.

Seu Etin, na cozinha de casa. (Foto: Thiago Santos)
Seu Etin, na cozinha de casa. (Foto: Thiago Santos)

Talvez seja justamente essa a maior medida de sucesso de uma cidade. Não apenas construir infraestrutura. Mas criar condições para que as pessoas construam pertencimento. E, nesse processo, transformar desenvolvimento em qualidade de vida.

 

Reportagem

THIAGO SANTOS

 

Produção

SÂNZYA FEITOSA

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