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Diferencie “É o cinema estúpido!” de “É o cinema, estúpido!”

Cinema nacional: Boas dicas para um mergulho em pérolas da filmografia brasileira. Foto: Arquivo pessoal

Maneiras de estimular ou incentivar uma plateia (bem) mais jovem – e até mais velha – a se aproximar de um (bom) filme brasileiro antigo não é fácil de imaginar. Motivos reais ou erguidos no imaginário nacional, dolorosamente, existem para isso.

Hoje, além da falta de oportunidade da própria exibição em si de filmes produzidos em outras épocas, acrescente uma geração altamente estimulada que não consegue fixar sua atenção na tela mais do que 5 minutos, assim como, um natural desinteresse promovido pelo distanciamento geracional.

Uma mistura desse desinteresse com doses de ignorância também faz parte dessa equação. Mas e essa culpa… Quem deveria carregar?

Sentado no sofá em frente a uma tela, naquela quietude que não quer combate com ninguém, quem deixa de ver Missão Impossível ou o novo filme do Ryan Gosling para assistir os brasileiros “Eles Não Usam Black Tie” (1981) ou “Matou A Família E Foi Ao Cinema” (1969)?

Filmes brasileiros: Quem matou o filme nacional e foi ao cinema?. Imagem: Rede

Além dessa condição quase patológica do espectador brasileiro, a rapidez incessante e a agilidade abalada da linguagem das novas séries, nacionais e internacionais, ou as bobeiras óbvias e cômicas dos problemas do brasileiro (a) médio, visto em filmes como “Minha Vida em Marte’ (2018) – ou qualquer produção Globo Filmes – e em estreias como o que acabei de ver – a (des) comédia “Tô de Graça” – vão moldando as preferências.

Desconfio que por meio do que conhecemos por “cota de tela” – exigência de um número mínimo de exibição de determinados filmes – temos agora a oportunidade de mergulhar profundamente nessa experiência de assistir filmes importantes da cinematografia nacional.

A Netflix acaba de disponibilizar filmes representativos de uma época bem distante, indo até outras produções de um passado mais recente, englobando adaptações literárias, documentários que espelham nosso modus vivendi, belas histórias ficcionais, até verdadeiras celebrações da música popular brasileira.

Cota de tela: Recentemente, o Governo Federal deu justo apoio à exibição de filmes nacionais. Imagem: Rede

A escolha dos títulos em cartaz no mais famoso canal de streaming faz jus a iniciativa de aproximar o espectador da filmografia nacional, oferecendo um salto de qualidade (técnica e artística) na nossa cinefilia.

Poderia passar alguns parágrafos demonstrando atributos e razões que justifiquem a experiência de emergir dessa ignorância redutora que categoriza filmes nacionais como pertencentes a uma terceira ou quarta divisão do campeonato mundial de cinema.

Vou simplesmente oferecer os títulos e desejar uma boa sessão (Como disse, todos na Netflix!):

Rio, 40 Graus (1955); Vidas Secas (1963); São Paulo Sociedade Anônima (1965); A Dama do Lotação (1978); Santo Forte (1999); Jogo de Cena (2007); Mutum (2007); Filhos de João – O admirável Mundo Novo Baiano (2009); Uma Noite em 1967 (2010); As Canções (2011); Últimas Conversas (2015) e Pacarrete (2020). (Podem me confrontar se houver aí filmes ruins!)

Dama do cinema nacional: Ah como é boa nossa empregada da arte. Cartaz: Divulgação

Compreendo que o cinema oferece atrações para diferentes tipos de pessoas e possibilidades de entretenimento e reflexão, afinal, a manipulação das sensações e emoções através da histórias reveladas na tela é a própria característica elementar da sétima arte.

Nessa competição pela atenção dos sentimentos do espectador, existem filmes mais apelativos (quase pornográficos de desespero por atenção) que normalmente vem adornados pelos clichês, sejam dramáticos, cômicos ou narrativos.

Outros apresentam uma diferente natureza do espetáculo cinematográfico e exigem uma maior disposição para um diálogo sensorial.

Por coincidência, ao escrever esse texto, me deparei com o trailer de “Tô de Graça” – nova comédia citada texto acima – e logo após, um vídeo entrevista do protagonista (o comediante Rodrigo Sant’Anna) onde o ator lamentava que a abordagem da personagem era a única que podia entregar, pois aquela figura tinha inspiração na sua própria realidade.

Rodrigo Sant’Anna personificando Dona Graça. Imagem: Divulgação

Sendo muito sincero, acho que justificar exageradas voltas em torno de si mesmo com um único tipo de personagem – ok, atividade legítima – também pode demonstrar uma enorme falta de criatividade ou inventividade. (Sinto, mas não farei malabarismos pra defender o indefensável!)

Sobre filmes, vejo (quase) todos e de muitos tipos, mas respeito (profundamente) somente alguns. Sem panfletarismo intelectual ou divisões classistas radicais, entendendo que o público brasileiro ainda é bastante ignorante quando se trata da nossa história cinematográfica.

Ignorância essa, diga-se, bastante estimulada.

Como afirmo, não acuso Rodrigo e sua personagem Dona Graça de falta de talento, pois também teria que desvendar a soberba capacidade de artistas como Ronald Golias, Charlie Chaplin e Jacques Tati e suas múltiplas performances (brilhantes) de um só personagem, respectivamente, Pacífico, Carlitos e Sr. Hulot.

Golias, Chaplin e Tati: O mesmo personagem e múltiplas facetas. Montagem: Arquivo pessoal

Nesse caso, sobre cinema, gosto popular e talento, nada parece explicar melhor que uma boa dose dos filmes de Mazzaropi e seu “Jeca Tatu” para entender onde estou e aonde você deveria chegar. (HD)

Tags: Brasil cinefilia cinema Cinema Nacional cota de tela Dicas Filme Netflix

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