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A América primitiva do Velho Oeste: A busca pela (in)civilização

Velho Oeste norte-americano: Onde os fracos não têm vez. Cartaz: Divulgação

Último domingo e a noite já estava adiantada. Sentei e comecei a assistir o primeiro episódio de uma minissérie e isso bastou para o “efeito narcotizante” ser ativado (usando um termo comum das minhas antigas aulas de teoria da comunicação).

No mundo de muitas ofertas de filmes/séries no streaming – onde algumas vezes a gente gasta mais tempo escolhendo o que vai ver do que realmente vendo, esse também outro efeito narcotizante – uma boa surpresa sempre é muito bem-vinda.

E não sei se foi minha curiosidade (dias atrás tinha visto o cartaz e o sinal de alerta disparou), disposição natural para novidade ou se fui capturado pela qualidade do que estava vendo ali.

Estreia: O impressionante faroeste é de deixar de queixo caído pela qualidade técnica e artística. Imagem: Divulgação

Sem perceber fui atirado no abismo do maratonismo – o tal bing-watching -, e só consegui parar porque realmente a vida de adulto não oferece muitas opções além de dormir na hora certa pra não atrapalhar o dia seguinte.

(Um naco de rebeldia resistente me fez assistir um episódio a mais do que o permitido pelas regras adultas e suas relações com os códigos de barra)

Mas era certo que ali havia uma ótima produção. Um profundo e intenso faroeste.

A brutalidade de um período histórico dos EUA está representada com autenticidade na minissérie “Terra Indomável” (American Primeval), recentemente estreada na Netflix. Fazia tempo que a história dos “pioneiros” do Far West não era apresentada de uma forma mais realista. Um retrato cru e portanto, impetuoso e assustador.

Massacre de pioneiros: Um dos momentos mais intensos das desventuras de uma mãe e seu filho. Imagem: Divulgação

Sempre gostei de faroeste – muito provavelmente influenciado pelos adultos ao meu redor quando eu era criança – mesmo percebendo que bang-bang era coisa de gente velha (isso não é etarismo, só constatação), mas ao mesmo tempo, tive reacionado meu interesse pelo gênero ao investigar alguns revisionismos históricos que influenciaram a construção do cinema clássico norte-americano e até hoje, influenciam o senso comum sobre essa determinada época.

A minissérie “Terra Indomável” é calcinante em todos esses sentidos: traz uma abordagem de um Velho Oeste muito menos idealizada e sem nostalgia, assim como surpreende por seu retrato histórico fiel e violentíssimo.

Acompanhamos a jornada de uma misteriosa mulher chamada Sara Rowell (Betty Gipin) ao lado de seu filho, tentando atravessar o Oeste americano para encontrar um suposto marido e sua jornada é extremamente perigosa e violenta.

E diante do desafio pouquíssimo amistoso, a protagonista vai angariando ajuda de figuras nada confiáveis. Em cada passo e decisão, junto com ela, sentimos o perigo presente acompanhado da desconfiança terrível sobre o que pode acontecer.

Um estranho sem nome: Auxílio luxuoso não existe, e sim, duvidoso. Imagem: Divulgação

Ambientada no conflituoso estado de Utah em 1857, a minissérie reconstitui um período da história em que o exército norte-americano, membros da igreja mórmon e povos nativos se enfrentaram em batalhas impiedosas.

Com uma mescla de personagens históricos reais e arcos imaginados, a trama – repito, violentíssima – trata o período sem maquiagens, apresentando uma face raramente explorada do Velho Oeste norte-americano.

Na trama da minissérie essa combinação de figuras reais e fictícias – por exemplo, a misteriosa dama em apuros e seu grupo – faz uma conexão com eventos que realmente aconteceram e explora muito bem a realidade da época. (O primeiro episódio dramatiza um massacre que realmente aconteceu: a matança na Montanha Meadows)

Sem dúvida, essa passagem é um dos pontos mais impactantes das recriações históricas nessa minissérie.

Manipulador: O mórmon Brigham Young na vida real e na ficção (Kim Coates) Fonte: Wikimedia Commons/Netflix

O fato de que a escolha narrativa insiste em diversas, seguidas e irritantes decisões equivocadas da jovem mãe protagonista – vivida por Betty Gipin – sempre trazendo mais prejuízo para a jornada do grupo é bastante acertada para o tom dramático da história.

A mulher (Sara) faz muita burrada e eleva – em carga máxima – nossas agonias e irritações diante das consequências resultantes de suas escolhas, fazendo o cenário ainda mais ameaçador e caótico.

Certamente os roteiristas fizeram seu dever de casa e há muitos ecos de filmes e histórias clássicas do gênero como os vistos em “Os Brutos Também Amam” (1953), “Rastros de Ódio” (1956), “Bravura Indômita” (1969), “Um Homem Chamado Cavalo” (1970) e até mesmo um faroeste incomum como “Mortos de Fome” (1999) – sobre esse último filme, o encontro com os franceses na minissérie demonstra a inspiração. (E com esse time de filmes fica fácil ter inspiração!)

Um Homem Chamado Cavalo: O caldeirão de referências na minissérie é nota 10. Cartaz: Cinema Italiano

Além das qualidades estéticas e narrativas, a realidade reproduzida em “Terra Indomável” melhora muito o enquadramento histórico do período que cobre o desbravamento rumo ao oeste norte-americano, na maioria das vezes, construído de forma bastante idealizada durante o apogeu das obras cinematográficas do gênero faroeste nos EUA. (Começo do séc. XX até meados dos anos 1970)

O Velho Oeste apresentado na minissérie – sem heróis e muitos bandidos – quem sobrevive não é quem saca mais rápido, mas realmente quem é mais cruel. Até o traço de romance que vemos é desapaixonado, indiferente e apático.

E passado tanto tempo dessa “América Primitiva” do título original, continua a sensação que quase nada mudou e a lei continua sendo a do mais forte.

“Você, que tem ideias tão modernas, é o mesmo homem que vivia nas cavernas”. Sacou? (HD)

Tags: Betty Gipin estreia EUA faroeste Filmes História lançamento Minissérie Netflix séc. XIX Taylor Kitsch Terra Indomável Velho Oeste

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